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O Natal como Construção Cultural no Olhar da Imigração

  • Foto do escritor: Mariana de Carvalho
    Mariana de Carvalho
  • 4 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 8 de dez. de 2025

Árvore de Natal iluminada flutua na água ao anoitecer, com montanha ao fundo. Luzes coloridas e céu azul-escuro criam atmosfera mágica.
O Natal como rito de renovação

Se nas culturas arcaicas o rito de renovação permitia voltar aos “anos inaugurais do ciclo”, hoje o Natal oferece ao sujeito moderno um breve intervalo simbólico de reorganização.

Mas essa sensação de recomeço não é produzida internamente, ela é construída culturalmente, atravessada por discursos, tradições, marketing, representações midiáticas e normas sociais.


É nesse ponto que o Natal se torna ambíguo: funciona como dispositivo de reinício, mas também como mecanismo de comparação, cobrança e sofrimento especialmente quando a vida real não corresponde ao ideal culturalmente imposto.


A solidão é um dos fenômenos mais agudos do Natal, justamente porque o período exalta a ideia da família perfeita reunida em torno da mesa. Quando a cultura transforma o “estar junto” em obrigação emocional e quando a mídia insiste que felicidade e união devem acontecer naquela noite específica qualquer desvio dessa narrativa produz dor.

No contexto da imigração, esse sofrimento se intensifica.


Pessoa sozinha de costas em um campo com névoa, clima sombrio. Paleta azul acinzentada, árvores ao fundo obscurecidas pela neblina.
A ideia de solidão é acentuada durante as épocas festivas

Para quem vive longe, o Natal se torna um lembrete dos laços interrompidos, dos ritos culturais que ficaram para trás, das comidas que não se pode preparar, das músicas que não ecoam do mesmo jeito, das ausências que reverberam mais forte no silêncio do inverno.

A distância além de geográfica: é simbólica.


O sujeito imigrante enfrenta não apenas a saudade, mas a pressão cultural que afirma que “Natal é família” como se os outros 365 dias do ano não fossem igualmente significativos.

Essa narrativa rígida cria um abismo entre o que o sujeito é capaz de viver e o que acreditam que ele deveria viver.


Além disso, o Natal contemporâneo está profundamente contaminado com a lógica do consumo.


A ideia de estar com a família é mediada por investimentos financeiros elevados: viagens, presentes, ceias, passagens aéreas cujos preços disparam justamente nesse período.

Se seguíssemos a retórica do “espírito natalino”, este seria o momento em que empresas tornariam mais acessível a travessia de quem vive longe, mas o que vemos é o movimento inverso.


Isso evidencia que muito do Natal moderno se estrutura cada vez menos sobre a espiritualidade e mais sobre a engrenagem econômica da época.


Presentes coloridos em papel vermelho, branco e bege, amarrados com fitas. Fundo desfocado. Atmosfera festiva e alegre.
A mercantilização do Natal

Essa mercantilização da presença, viajar para “estar junto”, comprar para “demonstrar amor”, consumir para “celebrar” torna o Natal ainda mais pesado para quem vive fora: exige esforço emocional e financeiro desproporcional e, muitas vezes, inviável.


Quando retiramos esse peso e voltamos ao símbolo do que o Natal é, nos damos conta da sua essência como ritual: um dia de oração, de reflexão, de luz, de advento, de nascimento. Percebemos então que a presença física, o consumo e a performance coletiva não são condições necessárias para a vivência do rito.


A dimensão espiritual (para quem a vive) e a dimensão simbólica (para qualquer leitor de cultura) são independentes da lógica mercantil.


É justamente nesse ponto que o mito de renovação encontra o sujeito contemporâneo:

não no excesso de expectativas, mas na possibilidade de ressignificar o Natal longe das imposições sociais, liberando o rito para que cada pessoa o viva conforme sua realidade, onde quer que se esteja.


Mariana é psicóloga com formação pela PUC-Rio, onde pesquisou o papel da imagem na vida humana e a transição das fotografias íntimas para a superexposição contemporânea. Apaixonada por arte, literatura e mitologia grega, considera a cultura um elemento essencial de sua formação e prática clínica. Seu trabalho se baseia em olhar além do sintoma, valorizando a pluralidade cultural e as nuances que tornam cada pessoa única. Nascida no Rio de Janeiro e residente na Dinamarca, integra arte, técnicas projetivas, análise de sonhos e mitologia em sua abordagem terapêutica.



2 comentários

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Convidado:
11 de dez. de 2025
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"Natal é família” como se os outros 365 dias do ano não fossem igualmente significativos. "

Perfeito essa frase, Mari.

Parabéns pelo texto.👏

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Convidado:
08 de dez. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito sensível seu texto! Parabéns!

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