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O acordo União Europeia – Mercosul e as oportunidades reais para microempresários brasileiros na Dinamarca

  • Foto do escritor: Sheilla Madeleine Vestergaard De Siqueira
    Sheilla Madeleine Vestergaard De Siqueira
  • 8 de mai.
  • 4 min de leitura
mapa mundi em branco, preto e cinza, com países do mercosul e da união europeia em destaque
O acordo entre Mercosul e União Europeia

O acordo entre a União Europeia e o Mercosul representa uma nova fase nas relações comerciais entre Europa e América do Sul. Embora muitas vezes esse tipo de acordo seja associado a grandes empresas e exportações em larga escala, ele também traz impactos ainda que mais indiretos para microempresários brasileiros, inclusive aqueles que vivem e empreendem na Dinamarca.

Poucas pessoas estão tão bem posicionadas para avaliar o que essa mudança significa na prática quanto Sheilla Madeleine Vestergaard De Siqueira, consultora de comércio brasileira e dinamarquesa, que desde 2015 lidera a De Siqueira Consulting, com presença na Dinamarca e no Brasil. Ela assessora empresas no comércio entre Europa e América Latina e possui ampla experiência trabalhando com os dois lados dos continentes.

Para os membros da AEBD, esse cenário pode abrir oportunidades interessantes. No entanto, é importante manter uma visão realista: o acordo não simplifica automaticamente o acesso ao mercado europeu, mas cria condições mais favoráveis para quem souber se posicionar de forma estratégica.


Um dos pontos mais relevantes do acordo é a redução gradual de tarifas de importação que, historicamente, sempre foram uma barreira importante para produtos brasileiros entrarem na Europa. Em alguns casos, tarifas que podiam chegar entre 10% e 35% tendem a ser reduzidas ou eliminadas ao longo do tempo.

Por exemplo, no caso de produtos alimentícios processados, como café torrado, derivados de frutas, ou ingredientes naturais, as tarifas podem ser reduzidas significativamente, tornando esses produtos mais competitivos no mercado europeu. No setor de bebidas, como sucos naturais, bebidas à base de frutas tropicais ou até algumas categorias específicas de bebidas alcoólicas, também há expectativa de redução de custos de entrada, embora ainda sujeitas a regulamentações rigorosas.


Já em produtos de artesanato e bens de valor agregado, como artigos feitos à mão, design brasileiro ou produtos culturais, a redução de tarifas pode facilitar a entrada, mas o maior desafio continuará sendo escala, logística e posicionamento no mercado, e não apenas o custo de importação.


Isso significa que, embora a redução de tarifas seja positiva, ela não elimina outras barreiras importantes, como exigências sanitárias, certificações e adaptação ao consumidor europeu.

Microempresas não competem em volume nem em preço com grandes indústrias, e nem deveriam tentar. O verdadeiro potencial está em produtos de nicho e diferenciados. O mercado europeu valoriza cada vez mais qualidade, autenticidade, sustentabilidade e origem. Isso cria espaço para produtos brasileiros com identidade própria, como alimentos típicos adaptados ao gosto europeu, produtos naturais, orgânicos ou ingredientes específicos como açaí, tapioca ou guaraná.

Ainda assim, é importante entender que nem todo produto pode simplesmente ser importado e vendido. Existem exigências rigorosas relacionadas à segurança alimentar, certificações e rastreabilidade. Isso significa que, antes de pensar em escala, o microempresário precisa investir tempo em entender as regras e adaptar sua oferta ao mercado.

Outro ponto fundamental é reconhecer que crescer sozinho pode ser arriscado e limitado. Uma das estratégias mais eficazes para microempresas é se integrar a cadeias de valor já existentes. Em vez de tentar exportar diretamente, muitos empreendedores podem atuar como intermediários, representantes ou parceiros de empresas brasileiras ou europeias. Nesse contexto, o papel de “conector” se torna extremamente relevante.


Brasileiros que vivem na Dinamarca possuem uma vantagem única: conhecem as duas culturas, falam diferentes idiomas e conseguem transitar entre mercados com mais facilidade. Isso permite atuar como facilitadores de negócios, criando pontes entre empresas brasileiras e europeias, seja através de representação comercial, apoio na entrada no mercado ou desenvolvimento de parcerias.

Além disso, o crescimento tende a ser mais consistente quando baseado em colaboração. Trabalhar com distribuidores locais pode facilitar significativamente o acesso ao mercado, já que esses parceiros conhecem os clientes, as regras e a dinâmica comercial. Da mesma forma, a colaboração entre brasileiros, seja para importação conjunta, troca de contatos ou partilha de conhecimento, pode reduzir custos e riscos.


Nesse sentido, redes e associações como a AEBD desempenham um papel importante ao criar um ambiente de apoio, troca de experiências e geração de oportunidades.

Um dos pontos mais importantes para microempresários é entender que a internacionalização deve ser gradual. O erro mais comum é tentar crescer rápido demais sem estrutura. O mercado europeu exige consistência, organização e cumprimento rigoroso de normas. Por isso, a abordagem mais eficaz é começar pequeno: testar produtos, validar a aceitação do mercado, ajustar a oferta e só depois pensar em expansão.

Esse processo permite aprender com menos risco, adaptar o negócio e construir uma base sólida. Crescer devagar, nesse contexto, não é uma limitação, mas uma estratégia inteligente.

O acordo UE–Mercosul não deve ser visto como um atalho para o sucesso, mas sim como uma plataforma que amplia possibilidades para quem está preparado. Para microempresários, os ganhos não virão de grandes volumes, mas da capacidade de identificar nichos, construir relações de confiança e operar com consistência.

Por outro lado, é importante evitar alguns erros comuns: competir apenas por preço, ignorar as exigências regulatórias ou tentar expandir sem planejamento. Esses fatores podem comprometer não apenas o crescimento, mas a sustentabilidade do negócio.

Em conclusão, o acordo representa uma oportunidade real, mas gradual. Para os microempresários brasileiros na Dinamarca, o diferencial não está no tamanho da empresa, mas na capacidade de adaptação, na visão estratégica e na construção de pontes entre mercados.


Aqueles que souberem trabalhar com nichos, desenvolver parcerias sólidas e crescer passo a passo estarão melhor posicionados para transformar esse novo cenário em crescimento sustentável e de longo prazo.

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