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O Papel Possível da Musicoterapia no Apoio a Autistas e Pessoas com TDAH na Dinamarca

  • Foto do escritor: Lizandra Maia
    Lizandra Maia
  • 13 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 1 de dez. de 2025

A permanência de nomenclaturas pré-DSM-5 e pré-ICD-11, a fragmentação entre especialidades e a ausência de intervenções complementares revelam limitações estruturais no cuidado ao neurodesenvolvimento na Dinamarca — contexto em que a musicoterapia se destaca como abordagem baseada em evidências.


Duas pessoas tocando piano sorrindo em ambiente interno com sofá, almofadas listradas e mesa ao fundo. Atmosfera alegre e descontraída.
Imagem autorizada pela irmã do familiar.

Quando o discurso político agrava um problema já existente


Recentemente, a Primeira-Ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, declarou que “o número de diagnósticos entre crianças e jovens deve ser reduzido”. A fala gerou forte reação de associações dinamarquesas ligadas ao autismo, TDAH e outras neurodivergências, que classificaram a afirmação como perigosa e estigmatizante. Associações reforçaram que diagnósticos como TDAH são condições neurobiológicas, não modismos ou exageros diagnósticos. Sem diagnóstico, famílias não têm acesso ao suporte necessário. Segundo as entidades, o problema não são as crianças — é o sistema, suas estruturas e a falta de apoio real. A fala da primeira-ministra, portanto, agrava um cenário já frágil.


Um sistema avançado que ainda não acompanha sua própria demanda


Embora seja referência em indicadores sociais, a Dinamarca enfrenta um desafio pouco discutido: a crescente demanda de pessoas com autismo, TDAH e outras condições do neurodesenvolvimento não está sendo acompanhada por uma modernização proporcional no atendimento. Na prática clínica, famílias relatam dificuldades em acessar intervenções integradas. Profissionais encontram limitações para tratar quadros complexos, especialmente quando há comorbidades como TDAH, TOD, ansiedade ou depressão.


Fragmentação clínica e especialização excessiva


No modelo dinamarquês, cada profissional costuma atuar em uma “caixa” diagnóstica muito estreita. Psicólogos frequentemente se restringem ao diagnóstico primário, enquanto psiquiatras lidam quase exclusivamente com avaliação e medicação. A comunicação entre setores é limitada.


Dependência de dois pilares: psicoterapia e medicação


O sistema segue baseado quase exclusivamente em psicoterapia tradicional e psiquiatria focada em medicação. Essas abordagens são úteis, mas insuficientes para alcançar aspectos essenciais como comunicação não verbal, integração sensorial, engajamento, flexibilização cognitiva e autorregulação emocional.


Nomenclaturas ultrapassadas: um indicador do atraso


Na Dinamarca ainda é comum encontrar termos como Retardo Mental, Oligofrenia e Autismo Infantil — nomenclaturas abandonadas internacionalmente por serem imprecisas e estigmatizantes. No Brasil, a modernização começou nos anos 1990. Com o DSM-5 (2013), adotou-se oficialmente Deficiência Intelectual e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entre 2019 e 2022, consolidou-se a ICD-11. A Dinamarca, porém, ainda está traduzindo e implementando a ICD-11, mantendo termos ultrapassados.


Um vazio terapêutico: falta de opções além do básico


Terapias amplamente reconhecidas — como musicoterapia, intervenções sensoriais e terapias expressivas — não fazem parte dos protocolos do sistema público dinamarquês. Isso deixa um vazio real entre diagnóstico e cuidado.


Onde a musicoterapia oferece respostas concretas


A musicoterapia atua onde o sistema atual mais falha: regulação emocional, atenção conjunta, comunicação não verbal, integração sensorial e engajamento. Funciona mesmo com baixa fala, hipersensibilidade, comorbidades múltiplas e desafios de vínculo.


A formação brasileira como diferencial clínico


Profissionais brasileiros têm formação mais integrativa, com maior repertório em psicopatologia, comorbidades, corpo, expressividade e abordagens ampliadas — o que favorece intervenções eficazes em quadros complexos.


Conclusão: o verdadeiro problema não são as crianças — é o sistema


O discurso político que propõe reduzir diagnósticos desvia a responsabilidade do sistema para os indivíduos. Reduzir diagnósticos não reduz sofrimento. O caminho é o oposto: modernizar nomenclaturas, integrar especialidades, ampliar terapias baseadas em evidências e incluir abordagens complementares como a musicoterapia.


Minibiografia


Lizandra Maia é musicoterapeuta e psicossomaticista. Formação em Clínica Racializada e Saúde Mental, extensão em Psicanálise com recorte de raça e gênero e Aplicadora Técnica ABA. Atua na Dinamarca com foco em regulação emocional, comunicação não verbal, integração sensorial e atendimentos a pessoas neurodivergentes e neurotípicas.


Contato

Para informações sobre atendimento, sessões e disponibilidade: ashantiliz1978@gmail.com




2 comentários

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Aline Rasmussen
19 de nov. de 2025
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Parabéns pelo texto e por sua atuação, Liz!

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Convidado:
11 de dez. de 2025
Respondendo a

Obrigada Aline!!!

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